Acendo um novo cigarro.
Ela imita meu gesto.
Mesmo advertidos de que
“Fumar causa mal hálito,
perda dos dentes
e câncer de boca”,
fumamos.

O Agente – Um dos meus tios, que por sinal era padeiro, para nos proteger e nos manter afastados do poço tentava nos assustar, dizendo que ali dentro, ali no fundo, havia um monstro.
O Agente – E nós, como éramos crianças, acreditávamos.
O Agente – Um dia meu primo, que hoje é advogado, por descuido acabou caindo no fundo do poço.
A Voz – Meu Deus! E se machucou muito?
O Agente – Fisicamente, não.
O Agente – Mas, como estava apavorado e levou algum tempo para que o resgatassem, ele ficou muito desesperado.
O Agente – Por sorte e por azar, ainda havia um pouco de água no fundo do poço.
O Agente – Por sorte, isso amorteceu a sua queda.
O Agente – Mas, ao mesmo tempo, com a luz que entrava no buraco e incidia na água, ele acabou vendo seu próprio reflexo.
O Agente – Por fim, quando o içaram, eu corri e perguntei a ele: “E então, como é o monstro?”.
O Agente – E a resposta foi: “Ele é como nós. Todos somos monstros”.

O Natimorto, Lourenço Mutarelli
(Companhia das Letras, p. 26-27)

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